quinta-feira, 7 de julho de 2011

O OLHAR CINEMATOGRÁFICO DA VIDA.

Por Ricardo Duque.


  Se Deus não existe então podemos tudo!
                                 (Fiódor Dostoiévski)

P
odemos dizer que a química na adolescência pode causar danos irreversíveis. O corpo é o deposito da culpa e de tudo aquilo que ele não suporta no mundo. Assim o olhar do adolescente pode ser cruel diante do espelho. A devolução de sua imagem um tanto distorcida no vazio narcísico da morte, o suicídio diário no diário da vida, pode escrever um roteiro de gozo em busca do desprazer real de um sintoma. Foi assim que a protagonista de nosso artigo escreveu seu roteiro, Christiane Vera Felscherinow, aos treze anos, no ano de 1977 agrega-se a um grupo de adolescentes para viver não a transferência, mas o encontro com o que ela mesma deseja. E foi nesse sentido de desejo que estes adolescentes migraram para o que eles mesmos chamaram de: ser Zumbi. Compartilhando do mesmo ponto de vista referente ao Outro, eles agregaram-se a transgressão do corpo e de todo referencial de lei, para suprir sua necessidade do vicio. O Real em si. Essa estrutura caótica em que o adolescente perverso se encontra, permite que o mesmo negue o simbólico que reside o significante nome-do pai vivendo o imaginário EU vivenciado no corpo que goza. Essa pulsão que transgride o sujeito, que o retira do lugar do simbólico, permite que este destrua seu corpo para legitimar a linguagem que silenciosamente grita, e que o mesmo não percebe o que é não existir nome para o real em ser dividido, e busca sanar a dor que sente provocando em si mesmo mais dor, onde a culpa é o siguinificante que ele precisa para existir, para dar sentido ao seu gozo. No filme, Christiane diz fazer tudo que o namorado, Detlev, faz pra sentir o que ele sente, mas na verdade ela quer sentir o seu gozo, alimentar o seu desejo sádico, achando ter domínio sobre si mesmo, quando ela mesma não se domina diante disso. É importante refletir que ela desfrutava da ausência dos pais que facilitou a vida transgressora da então adolescente. A mãe compreensiva aos seus devaneios cuidava como quem alivia a própria culpa por ser tão ausente na vida da filha. Isso facilitou o abismo em que Christiane se encontrou, ela não se reconhece, algo seu foi destruído pra sempre, não há palavra que defina o vazio de sua existência, não há mais transferência, porque não há mais amor em Christiane F. pelo menos no filme.


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