sábado, 9 de julho de 2011

Qual o valor da vida?
Por Ricardo Duque.

Começo chocado com um depoimento de uma adolescente desconhecida de uma determinada escola publica do sul do país, que esfaqueou sua colega de classe dentro da escola com o obvio objetivo de matar. Seu discurso é frio, sem arrependimentos, típico de jovens perverso, que abomina o real significado de lei, de moral e de princípios básicos de se viver em sociedade.
A perversa:

-Tem que morrer essa safada!
-Eu cheguei... Esperei ela no intervalo, encontrei no corredor... ai foi daquele jeito.
-Por que você fez isso dentro da escola? -pergunta o reporte-
 -Pra todo mundo ver! Queria ver ela no chão estirada. Eu pensei que ela não ia morrer, mas ela morreu...
-Você não achou que ela ia morrer? - pergunta o reporte-
-Não... eu queria que ela morresse mas só que ela não morreu na hora, ficou dez minutos ainda viva... ai depois que ela morreu! ...Por que não da nada matar sendo de menor... três anos passa rápido!
- E a vida dela? -pergunta o reporte-
- Ah! Um dia ia acabar mesmo... eu só adiantei...

Como podemos perceber, a jovem que cometeu essa barbárie, não demonstra nem um arrependimento quanto ao crime cometido, alem do mais, seu discurso é dito com certo tom irônico quanto à vida do outro, sem respeito à vida, como algo banal, ela quebra todas as regras básicas de valores pra se viver em sociedade. E sem culpa vive o perverso.
A relação com o tudo pode, o Outro deixa de ser ou ter valor numa sociedade que tudo é permitido, onde a delinqüência ultrapassa a fronteira da moratória e cai no abismo da criminalidade. Para obter reconhecimento e respeito dos Outros, esta jovem mata na escola “pra todo mundo ver” que ela é quem determina se este ou aquele deve viver, uma vez que o Estado tem leis que corrobora muitas vezes para a criminalidade dos que vivem a margem da sociedade. Apesar de ser algo de ordem publica, não é meu papel aqui trazer as questões falhas do Estado, e sim, o discurso de uma jovem perversa, ou, transgressora de sua própria existência que mata a fim de ser reconhecida pelos seus.
De forma desordenada a imagem torna-se um significante perigoso em nossa sociedade, cujos valores reais estão subtraídos na relação de poder, ou de quebra de poder. A fim de exaltar o hiper, o jovem perde o controle de seu desejo sucumbindo ao mesmo, transgredindo a ética, vivendo a supremacia da autonomia individualista. Imposta pela sociedade, onde a relação com o objeto torna escravo o sujeito que sucumbe sua subjetividade ao demasiado. Esse paradigma simulacro vem do “é proibido proibir” que foi muito vigente nos anos 60 e 70, escondendo o real que não se apresenta no adolescente. É sabido que é normal o adolescente ter com os pais um conflito por não se submeter a sua moratória, o que não vejo como normal é a transgressão que permite o mesmo agir de forma patológica.
Assim, o pavor de Freud em O Mal-Estar na Cultura, confirma a sua tese de que os limites não estão mais nos dias de hoje em voga, onde ele diz que “também é possível afirmar que quando a criança reage às primeiras grandes frustrações dos impulsos com uma grande agressão excessiva e uma correspondente severidade do supereu, ela segue aí um modelo filogenético e vai além da reação atualmente justificada, pois o pai da pré-história certamente era terrível e a ele se devia atribuir à medida mais extrema de agressão.” [p157] Certamente as reações dessa jovem vêm trazer à tona a morte de uma lei, a imposição de um falo simbolicamente ausente, que diz que esta, por causa de uma discussão numa determinada festa, se manifesta violenta em sua frustração. Logo, pode-se dizer que a ausência de culpa dessa adolescente corrobora com uma estrutura perversa, utilitária, que diz até quando o Outro presta pra si.
De forma desprezível, o descarte humano vem sendo a grande angustia que traz na realidade atual a venda da imagem perfeita dentro da realidade de cada um, quando este jovem se ver sem o tênis da moda, ele mata quem tem pra ter, apropria-se do alheio para estar na moda, tira a vida do outro pra se apresentar nos seus com respeito -prefiro dizer temor-, e assim vive uma vida de regresso... Qual o real valor da vida? E quem são esses pais ausentes?
  



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